terça-feira, 16 de maio de 2017

RESENHA DE CARLOS CARVALHO

segunda-feira, 15 de maio de 2017

ACIDADE, DE CARLOS NÓBREGA E POETA DE MEIA -TIGELA

 
Em As cidades invisíveis (1990), de Ítalo Calvino, a cidade não é apresentada como um conceito geográfico, mas como um organismo vivo e pulsante que em tudo se assemelha ao próprio ser humano. Cada capítulo do livro de Calvino é dedicado a uma determinada cidade. Cada uma dessas cidades possui nome de mulher. Sobre elas, o que se sabe é aquilo que Marco Polo conta ao poderoso Kublai Khan. Não se sabe se Kublai Khan acredita em tudo o que diz Marco Polo, quando este lhe descreve as cidades visitadas em suas missões diplomáticas, mas o imperador dos tártaros certamente continua a ouvir o jovem veneziano com maior curiosidade e atenção do que a qualquer outro de seus enviados ou exploradores (CALVINO, 1990:9).

O que faz com que Khan continue ouvindo Marco Polo talvez resida na maneira como o veneziano faz seus relatos. As cidades, sejam quais forem, são o que são. Contudo, o que se dá aos olhos depende em muito de quem vê. Assim, as cidades podem ser masculinas, femininas ou até genderless. As cidades podem ser feias, belas ou malditas. As cidades também podem ser, como naquela canção de Aroldo e Moraes Moreira, uma representação do amor e da liberdade. A cidade pode ser uma moça. Pode não ter idade. As cidades comportam mundos. Abrigam, agridem, amedrontam. Mas afinal, o que é a cidade? Uma maneira de responder tal questionamento é fugindo dos muros e das grades que nos “protegem” de quase tudo. Mas, Humberto Gessinger já nos alertou que o quase tudo, quase sempre é quase nada. Dessa forma, é necessário sair à rua e ver a cidade fluir, de perto, com seus odores, suas flores e seus desvãos.

E me parece que foi exatamente isso que os escritores Carlos Nóbrega e O Poeta de Meia-Tigela resolveram fazer. O resultado dessa empreitada é o livro Acidade, de 2016, publicado pela Expressão Gráfica e Editora. O livro tem 156 páginas. O prefácio foi escrito por Bárbara Costa Ribeiro, enquanto o posfácio ficou a cargo de Li Lê Santos. O título do trabalho traz em si um trocadilho entre “a cidade” e “acidade” (acidez), ao mesmo tempo em que reconhece na cidade, a acidade.

CAENS DE RUA

A cidade é um lugar anormal,
Uma guerra entre o mau e o mau
Vence quem late mais au
Perde quem perde o sinal. (p.43)

Dizer que Acidade é um livro de poesias seria ignorar todos os recursos multimodais que compõem o referido trabalho, encarcerando-o em apenas uma das inúmeras prateleiras do cânone literário. O livro de Nóbrega e Meia-Tigela vai muito além, fazendo-nos lembrar do icônico Zero – romance pré-histórico, de Ignácio de Loyola Brandão. O romance de Loyola, após ser recusados inúmeras vezes pelas editoras brasileiras, acabou sendo publicado na Itália, no ano de 1974, por Giangiacomo Feltrinelli. Como o Brasil insiste na sua “viralatice”, Zero só foi publicado por aqui no ano seguinte, pela editora Brasília/Rio. As justificativas para não se publicar o Zero se baseavam na alegação de que “dificuldades gráficas” impediriam a boa execução da obra. Ninguém dizia, no entanto, que a obra era revolucionária e questionadora. E um livro que pudesse ser usado como provocação não poderia, obviamente, vir a público naqueles tempos sombrios nos quais o Brasil vivia soterrado.

Zero é considerado, hoje, um romance de caráter pós-moderno. Os tempos, conforme disse Raduan Nassar ao receber o Prêmio Camões, continuam sombrios. Dessa forma, toda e qualquer obra verdadeiramente artística corre seríssimos riscos de enfrentar “dificuldades gráficas”, para que possa chegar ao público leitor. Ainda bem que isso não aconteceu com Acidade, tendo em vista a acidade das decisões político-jurídico-midiáticas que têm assolado o país.
 
?
aos teus pés
morrem dois
morrem dez
e depois
morrem cem
morrem mil
que que tem?
é brasil
são inúmeros
são antônios
são só números
só anônimos (p.50)

Mas afinal, o que Acidade? A ficha catalográfica do livro “entrega o jogo”. Lá, lê-se: “Acidade é um Livro-Zine, um Livro-Zona, um Livro-Zão, um Livro-Zen como qualquer outra cidade”. Acreditamos que poderia se afirmar que Acidade também pode ser um Zine-Livro, ou seja, um fanzine em forma de livro capaz de abarcar tudo aquilo que não seria possível de ser colocado, por questão de espaço, em um zine tradicional.
CIDADE
   o clube é vizinho do açougue
que é vizinho da igreja
vizinha à cadeia
à esquerda do bordel
que dá frente ao hospício
ao lado do bar
nossa casa no meio
somos todos vizinhos
somos todos vizinhos
de nós mesmos. (p.105)

Mais importante que a forma, a nosso ver, é o conteúdo. Assim, pelas cento e cinquenta e seis páginas de Acidade, a cidade de Fortaleza, habitat dos autores, aparece em situações que são belas, tristes e revoltantes. O descaso com o homem e o meio é denunciado pelos poemas e imagens fotográficas de placas, logomarcas, pichações, monumentos e anúncios que constituem a obra. Mas não é apenas Fortaleza que surge em Acidade. Nesse mais recente trabalho de Nóbrega e Meia-Tigela, está todo um Brasil que não se mostra no horário nobre da tevê. Está o submundo, a vida e o cotidiano das coisas e das pessoas que jamais caberiam numa poesia bela, recatada e do lar. Em Acidade está a poesia propriamente dita. Aquele canto poético torto, feito faca, pronto para desafiar o coro e cortar a carne dos contentes.
 
 
POSTAGEM ORIGINAL E PÁGINA DO AUTOR: http://blogdocarloscarvalho.blogspot.com.br/ 

quarta-feira, 12 de abril de 2017

SERTÃO DE TODOS NÓS. DE PEDRO SALGUEIRO

Bandeira de Tamboril

Fui, sou e serei, para sempre, apenas um sertanejo exilado no litoral. Nada aqui me diz respeito, por aqui tudo é transitório, passageiro... Apenas espero a triste hora do alegre regresso.
Aos trinta, por puro esnobismo, comprei gaiola na última linha do oceano. Cuidadosamente de costas pro mar, pra que toda manhã pudesse desdenhar meu asco de pequeno-burguês físico mas nunca mental. De lá pra cá andejo em linha reta rumo aos Inhamuns.
Aos quarenta, atravessei a fronteira imaginária da 13 de Maio, linha simbólica de todas as Fortalezas. Em sentido contrário aos tolos, tontos suburbanos mentais.
Meu voo é de avoante ferida, com tiro de chumbo nas c’roas do rio Acaraú, nas quebradas do Riacho do Gado, por trás da Barra da Oiticica, de lado da Caconha de todos os loucos.
Pois em cada quarto de qualquer família pulula um doidinho de testa quadrada, encarnado de sangue da abelha Capuchu... Enquanto o Diabo, rosianamente, redemoinha no terreiro.
Gracilianamente seco, corre meu sangue pelas veredas pedreguentas do Carão. Do outro braço, o direito, o sangue das tristes Oliveiras, dos tontos bons da Curimatã, do Jumentão da Maravilha.
Apenas quando se estende pelas estradas do Canindé, as palavras vão escasseando, até quase sumirem da voz. Água evaporando na língua morna de todos os nós. De marejado apenas os olhos, único órgão úmido do sertanejo que volta.
Sou filho, pelos dois lados, da primeira geração que saiu do campo, que desbravou a cidadezinha no pé da Serra das Matas. Não sou filho de matuto urbano, mas de matuto dos matos, de pés rachados na urina do lajedo quente.
Meu pássaro é o Camiranga de beira de caminho, comedor de Cassaco e Tejubina de grota.
Meu ouvido é de rabeca triste cantada por cego em final de feira.
Minha casinha é branca, de parede grossa, luzindo na sombra de uma Jurema imaginária.
Mesmo longe de nosso chão, formamos confrarias de quase surdos-mudos.
Apenas olhamos para o nascente a perscrutar chuva.
E quando ela vier, é certo que vem, virá sempre!, um dia. Já nos encontrará de mãos trêmulas e mala pronta.

terça-feira, 28 de março de 2017

CRÔNICA DE CARLOS CARVALHO

SERTÃO: POETAS E PROSADORES

O sertão é quase uma incógnita, uma esfinge. Como popularmente se diz: “o sertão não é para os fracos”. Para se viver no sertão, já dizia Euclides da Cunha, precisa-se ser, antes de tudo, um forte”. E o que será que diria o autor do clássico  Os Sertões (1902 ) sobre viver e escrever no sertão? Na verdade, o sertão nem sempre precisa ser o sertão. Itamar Assumpção, por exemplo, diz: “ São Paulo é meu sertão”.

No Dicionário do Brasil Colonial (1550 – 1808), Ronaldo Vainfas traz um esclarecedor verbete denominado “sertão”. Contudo, o sertão de Vainfas é, em muito, diferente do sertão que nos engole de dia com seu calor infernal, mas que à noite nos agasalha e nos protege contra o frio trazido pelo vento Aracati.  E é das vozes desse sertão que o escritor Bruno Paulino trata em seu mais recente livro intitulado Sertão: poetas e prosadores (2017), publicado pela expressão Gráfica e Editora.

O referido trabalho é constituído por 109 páginas, contendo dezenove perfis de autores que, de uma forma ou outra possuem relação com o sertão, mais especificamente, com a cidade de Quixeramobim, situada no Sertão Central do Estado do Ceará. O livro conta também com um prefácio assinado pelo poeta Rodrigo Marques, professor da Faculdade de Educação, Ciências e Letras do Sertão Central – FECLESC, da Universidade Estadual do Ceará – UECE. A apresentação ficou por conta do escritor Arievaldo Vianna; enquanto o posfácio, por sua vez, ficou a cargo de Alves de Aquino, o Poeta de Meia-Tigela.

Ao longo de Sertão: poetas e prosadores, Bruno Paulino discorre sobre seus encontros e conversas com importantes nomes da cultura brasileira. Dessa forma, estão presentes no trabalho Audifax Rios (Aqui, tem-se uma bela homenagem à memória de Audifax, quando as páginas estão em preto e a indicação dessas páginas é feita com as letras do nome do artista), Marcos Mairton, Luiz Gonzaga, Geraldo Amâncio, Arievaldo Vianna, Rouxinol do Rinaré, Klévisson Vianna, Luiz Costa Filho, João Eudes Costa, Gordurinha, Alberto Porfírio, Moacir Costa Lopes, Vasco Benício, Claudio Portella, saraiva Júnior, Jards Nobre, Diogo Fontenelle, João Pedro do Juazeiro e J. Bosco Fernandes.  

Bruno Paulino, certamente, fez uma seleção dos poetas e prosadores dos quais gostaria de falar na obra em questão. E, talvez por isso, alguns poetas e prosadores de enorme relevância acabaram ficando de fora. Assim sendo, sentimos falta de um capítulo que fosse dedicado ao Cego Aderaldo (o capítulo “Claudio Portella e ampla visão de Cego Aderaldo”, p. 79 – 84, traz Portella falando sobre Aderaldo), bem como outro dedicado a um dos nossos poetas maiores, Jáder de Carvalho. Nonô da Sanfona (mencionado no capítulo “O rei do baião em Quixeramobim”, p. 30 – 33) também merecia um capítulo só pra ele, assim como o poeta Fausto Nilo, mencionado no mesmo capítulo. Percebemos ainda em Sertão: poetas e prosadores, a ausência de poetisas (o termo “poeta” também pode ser usado no feminino) e prosadoras, as quais, sabemos, existem em grande quantidade pelos nossos sertões; sejam eles “são paulos” ou “quixeramobins”.

E embora os textos que compõem Sertão: poetas e prosadores tenham sido escritos para publicação em jornal; o que poderia caracterizá-los como “perfis jornalísticos”; implicando em uma linguagem mais específica para o veículo, não é isso que se dá. O que se percebe é a linguagem “nua e crua” da crônica dominando todos os textos assinados por Bruno Paulino, o que, de imediato, salta aos olhos do leitor das referidas narrativas.

Assim sendo, Sertão: poetas e prosadores (2017) não deve ser compreendido como um livro de crítica literária ou uma coletânea de perfis, por exemplo, mas como um agradável livro de crônicas que se erigem a partir de uma ideia central, seja um autor, um fato ou uma obra, mas que descambam livremente para outros caminhos, permitindo as mais variadas interpretações que só são possíveis no contexto da abertura proporcionada pela própria obra.

Postagem original aqui: 

http://blogdocarloscarvalho.blogspot.com.br/2017/03/sertao-poetas-e-prosadores.html 

segunda-feira, 4 de julho de 2016

HÃ?



Hã? 

Wilton Matos / O Poeta de Meia-Tigela

(Am Am6 Am G)

Am G
O que sou? O que for
D/F#
Penso não devia ser
F7+
Parece nasci para ter 
C9 (Am Am6 Am G)
Azar no jogo e no amor

F7+
Que sou eu? Quem sou?
C9 Am
Sou quê ou quem ou
F7+
Outra qualquer coisa
C9 D4/A
Que ser coisa oisa?
F7+
Sou alguém que fuma
C9 
Mas não se acostuma
Am F7+
Com o seu fumar. Bebe,
C/G
Mas não se concebe
D4/A
Restrito ao beber. C/G D4/A (Am Am6 Am G)
Que sou? Ser é o quê? 

F7+ Am7/E Am/D C6
Ser é ou. S(ou). Ou?

(Am Am6 Am G)
Sim, penso, existo.
Mas o que sou?
Sou o que hesito 
Em ser? Ou... Ou
Sou só o que penso?
Mas que pensa
O quem o qual
Sou? É? Hem? Saberá?
Que tal?
Existo, sim.
Que sim sou?
Existo? Que mim sou?
Sou?
Talvez

(Dm7 Dm6)
Nem só de pão?
Eu não sei não
Troco toda a filosofia
Por uma bolacha maria.


https://www.youtube.com/watch?v=6Koz_9gl1D0

terça-feira, 28 de junho de 2016

"Olha pro o Céu e pra mim, meu amor", crônica de Raymundo Netto para O POVO (no passado)


Anavã! Chegamos a junho, mês em que aconteci neste mundo, no meio do caminho, feito Pedro, ligeiro e cianótico, fugido de Natal, dependurado no bico de cegonha trapalhã e berrando: “Eu quero nascer é no Ceará!” Por isso, de não conhecer na Terra nada que me papoque mais as lembranças do que festas juninas, balõezinhos chineses, barraquinhas de palha de coqueiro, o cravo tinindo na castanha do pé-de-moleque ou a voz ecoada do Gonzagão em pagode russo na boate Cossacou: “Foi numa noite/igual a esta/que tu me deste o teu coração./ O céu estava/todinho em festa/ pois era noite de São João.”

Hoje, a cultura invasiva da sociedade do espetáculo sapucaicou as nossas festas, que deperecem ao afetado glamour e ao som de axé ou forró de plástico, que nem de longe imita o que nos fere a saudade.
Por outro lado, dia desses, ao me encostar em mesinha de plástico, numa praça em areias na rua do Sabão, onde se dava uma quermesse de igreja, olhava para o cimo céu estrelado de bandeirinhas coloridas de papel, e recordava a animação dos bairros de uma Fortaleza interior, quando os jovens se aproveitavam das festividades para escolher como par de quadrilha aquele ou aquela a quem o peito devotava gemidos de paixão, mas era desencorajado de se achegar. Nos dias de ensaio e de preparação, porém, estariam juntos, mesmo que disfarçando o ribombar da emoção e o desafino típico de primeiro amor, mas de nunca sentir tanta alegria, cortando papel de seda de cor, colando com grude de panela bandeirinhas no barbante de corda, pedindo pelamordedeus que a mamãe não esquecesse de emendar aqueles retalhos na calça e na camisa ou mesmo de costurar o vestido florido de chita.
Afinal, o dia da festa, foguetório no ar: a rua de pedras toscas tomada de barraquinhas de jogos e tabuleiros de paçocas, baião de dois, espetinhos, vatapá, bolos, refrescos e aluá. A fogueira de lenha estalando calores nos olhos curiosos da meninada e os quadrilheiros chegavam: as “damas” com vestidos de babados e tranças caídas em fita nos ombros, e os “cavalheiros”, sob chapéus de palha, ao pescoço lenço de cor, em camisa e calças rotas, bainhas tortas e alpercatas de couro. Encontravam-se os pares a ensaiar um passo diferente de “motocicleta”, “cavalo” ou “aleijado”. A moça, mais ousada, pintava a lápis o bigode, a costeleta, o cavanhaque no par desajeitado. Ele, a pretexto de lhe tocar o rosto, ali pintava uns três ou quatro pontos negros, deitando o olhar já cativo àquele sorriso que lhe parecia feito de luar.
Vinha lá o pai Francisco tocando o seu violão bi-rim-rim-bão-bão e o seu delegado. Após o casório, a quadrilha começava com anavãs, anarriês, balanceio, serrote, túnel, parafuso e passeio: “Lá vem a chuva!” “Olha a cobra!” As senhoras alimentavam de gás os candeeiros, enquanto o sanfoneiro, no resfolego do seu fole de oito baixos, convidava para o rapapé no salão, que ameaçava ir até amanhecer e a palha voar. Enquanto o cavalheiro, com o coração molinho, molinho, despontava um inocente “Olha pro céu, meu amor, veja como ele está lindo...”, sendo acolhido por um beijo de assalto “tão bonito e tão sincero feito festa de S. João”.

quinta-feira, 9 de junho de 2016

segunda-feira, 30 de maio de 2016

CABECEIRA



Entrevista d'O Poeta de Meia-Tigela no programa Cabeceira, com Rosanni Guerra. TV Assembleia, CE




https://www.youtube.com/watch?v=0YRs9RfLhd8